quinta-feira, julho 22, 2010

Há momentos que ficam...

....E em que tudo parece "bater certo".
Todos nós perseguimos objectivos, sonhos, demandas.
O processo de alcançar esses objectivos, o planeamento, como diz o meu amigo Alexandre o "sonhar acordado", é das particularidades que mais gosto na pesca enquanto desporto.
Será que a amostra é a adequada? Será que a animação vai provocar uma ataque? A cor será eficaz? E a altura da maré? Haverá lá peixe? Entre tantos outros factores que nos fazem duvidar, ou acreditar, ter "Fé", que hoje vai ser o "Dia".

Numa noite quente e abafada de Verão, com a água espelhada, sem a mínima aragem, condições que me faziam acreditar que, talvez hoje, fosse uma noite boa.

Indo buscar ao banco de dados da memória toda a experiência prévia, a animação das amostras, a cor a usar, e aquele gozo enorme que para mim é criar a expectativa sobre o que irá acontecer.
Mas às vezes expectar não chega, e não prepara.

Anima lentamente um shad de vinil junto ao fundo, dando um toque de ponteira aleatório para o fazer subir, com uma recolha lenta, sentindo bem o relevo do fundo, parando, fazendo a amostra "tremer", na esperança que algum predador achasse a minha amostra uma presa ferida, digna de ser aniquilada.

Senti uma prisão. Esperei um segundo, ferrei, e depois....
Nada.

Preso? Parecia preso, mas passado alguns segundos a prisão começou a mexer-se muito lentamente, levando um metro de cada vez de linha, muito lentamente...como que uma força preguiçosa quisesse apenas passar a mensagem que se sentia ligeiramente incomodada.

Estranhei, sabia que provavelmente era um peixe de tamanho aceitável, pois pelo menos inicialmente não o conseguiria descolar do fundo.

Depois de meio minuto a passo de caracol...o Inferno desceu à Terra.
O peixe tinha entrado de numa zona de corrente e como se tivesse apercebido do bónus que a corrente lhe daria...dispara.

Eu já tinha tido peixes grandes a levar linha rapidamente, mas este, este era diferente.
O meu drag estava no ponto, não poderia apertar muito mais ou o Power Pro de 15 libras partir-se ia zangado sob tensão.

A linha esvaia-se do carreto a uma velocidade estonteante. Eu segurava-me à Gloomis, com a adrenalina a entrar em circulação, mas sem poder fazer grande coisa, sem ser esperar pacientemente por uma paragem.
Saiem 100 metros de linha...
200...
Começo a ver o caso muito, mas muito mal parado.

Quando a linha começava a escassear na bobine do Twinpower lá tive uma paragem, uma aberta para começar a bombear rápido, e recuperei alguns metros perdidos.
Este ciclo foi-se repetindo ao longo de vários longos minutos.
Corridas desenfreadas e imparáveis, cana dobrada até ao máximo que o seu blank permite, muita força aplicada, nas pausas, muito esforço físico para bombear e recuperar linha.
O tempo foi passando, a sudorese picava-me os olhos, o calor, a dor de braços, sensações que normalmente não associo à pesca.
Por fim o meu adversário, que até então me tinha feito pagar por cada metro de linha recuperado parou.
Aproveitei a paragem e apliquei 2 toques fortes e secos, com o objectivo de, com um pouco de sorte, fazer a animal mudar de rumo, e correr para terra, em vez de ir forçando para fora, pois arriscava-me a suportar uma corrida que me tirasse a linha toda da bobine.
Esta "técnica" é uma aposta arriscada, uma amostra ou cabeçote mal ferrado, e as probabilidades o peixe se desferrar são altas, mas arrisquei.
Resultou.
O bicho mudou de rumo, e lentamente foi-se aproximando de terra, sentia-o mais cansado, mas sinceramente, eu também não estava melhor.
Na altura, por estranho que pareça, nem queria ficar com o peixe, tudo isso era secundário, o "apanhar" era algo que já não me importava, se pudesse pedir, pedia apenas uma coisa, vê-lo.
Ver o animal que me tinha levado ao limite, para que, mesmo que não o apanhasse, pudesse continuar a sonhar acordado por muito mais tempo.
Finalmente, acercou-se da margem, lentamente como um submarino de ataque que emerge, um vulto de prata assomou-se à superfície.
Era grande, era um "daqueles".
Mais uma descarga de adrenalina, mais uns minutos de taquicárdia.

Por fim, e com ajuda de muitas mãos e braços de amigos, encalhou-se o imponente animal.
Era o momento derradeiro, uma corrida desesperada, um afundar repentido, e a luta era ganha pelo meu adversário, mas quis o destino que eu tivesse sorte.
Tive a sorte de lhe por a mão na placa da guerla, de o pegar ao colo.
Levantá-lo? Não. Já não tinha forças para isso.


Uma bela corvina, e uma luta, que para mim, foi fenomenal.


Senti-me pequeno, é um bonito animal, imponente e digno de respeito.


Em relação ao tamanho, mediu 1,67 metros e pesou 38 quilos.
Mas mais importante que tudo isso é a satisfação, de ver toda uma aprendizagem que comelou praticamente do zero ao longo de dois anos,a pescar especificamente a esta espécie.
Depois de alguns dissabores, erros e aprendizagens pelo meio, boas capturas, e peixes libertados, fui contemplado com uma senhora Regius.

Em relação ao material, foi o habitual:

Cana Gloomis SJR 783 MH 6'6''.
Shimano Twinpower 4000 FB.
Power Pro 15 libras Vermillion Red + Seaguar FXR 0,43 mm.
Amostra Berkley Powerbait Swimshad de 5" + cabeçote Storm Lip Weight de 15 gramas.

Uma luta de cerca de 40 minutos épica, e da qual provávelmente, não me esquecerei.
MAS denoto que não é o mais adequado para este tipo de peixes, em especial em sítios com muita estrutura!!!!
Lembram-se quando digo que somos recompensados pelo peixe que soltamos?
Cada vez mais acredito nessa máxima.
A Natureza recompensa-nos, e o esforço e dedicação também.

Para terminar em beleza, outro momento que me deixa imensamente feliz, ao fim de uma jornada de quatro anos, terminei hoje a Licenciatura em Enfermagem.

Venham as Férias! Que bem as mereço.

Até ao próximo lance! E quem sabe....senão será mais um momento para recordar?

domingo, julho 04, 2010

Um livro para estas férias...

Breve passagem do Capitulo 12
... " Como qualquer outro pescador que acabou de apanhar um peixe, estou sempre bastante ancioso por voltar a meter a minha linha na água, mas se acabei se apanhar uma coisa especial, sinto que é uma desonra não não só para o peixe como também para a ocasião se não fizer uma pausa para apreciar condignamente o momento. Por agora , ainda acho que uma perca de um quilo e trezentos é demasiado gloriosa para partilhar o dia com qualquer outro peixe e não me interessa que, sendo a perca um peixe de cardume, possa haver uma forte possibilidade de haver uma ainda maior. Tenho vários amigos pescadores que fizeram pescarias de percas enormes de rebentar com as redes, mas se eu apanhasse uma segunda igualmente sensasional, acho que, provalvelmentem iria retirar o brilho à primeira. Todavia, se apanhasse meia dúzia e fossem todas enorme, isso não iria tornar este dia agradável ainda mais agradável? Provalvelmente não, porque cada peixe que apanhasse iria diminuir o valor, as qualidades especiais, do anterior reduzindo a maravilha original a uma unidade numa fila de números, como uma solha perdida num banco de areia ou um bacalhau num lago. Não preciso de um barril cheio; a única coisa que desejo é que, de vez em quando, uma criatura brilhante se erga do secretismo do seu rio para que me possa regozijar com ela e possa estabelecer um contacto definido tipo afinal-de-contas-tu-existes-realmente. "...
:-)