terça-feira, setembro 07, 2010

Corvina-legitima (Argyrosomus regius)




Eu e o Pedro Russo fizemos um texto para a revista Mundo da Pesca que foi dividido pelos meses de Julho e de Agosto e achamos por bem deixar aqui um excerto correspondente à parte que achamos mais significativa.

(A informação seguinte baseou-se em dados presentes no site Fishbase e em leituras efectuadas em vários sites de pesca, assim como através de conhecimentos partilhados em conversas informais com especialistas na área. A presença de alguma imprecisão aqui citada é da nossa total responsabilidade.)

A corvina-legitima é denominada cientificamente Argyrosomus regius, significando a expressão latina “peixe real de corpo prateado”. Esta espécie é capturada em Portugal há mais de 7000 anos atrás, existindo numerosos vestígios arqueológicos relativos à sua pesca, desde o Mesolítico.
Alguns estudos apontam para o facto de a corvina poder atingir os 100kg, outros referem como peso máximo os 50 kg. Tive recentemente, por exemplo, conhecimento de uma captura em Portugal de um exemplar com 62kg. Espécimes com pesos desta natureza podem rondar os 40 anos de idade (facto que merece veneração por parte dos pescadores, visto serem mais velhas do que o próprio ou mais velhas do que os seus filhos). Por exemplo, em contraste, uma sardinha raramente ultrapassa os 5-6 anos.
Um outro factor a destacar é o seu comprimento, que pode atingir os 2,3 metros, embora na nossa costa raramente ultrapassem o1,8 metros e 50kg.
O seu corpo é quase fusiforme e imponente, com a linha lateral bem marcada, cor de prata e a boca cor de laranja ou amarela. Em Itália são mesmo denominadas “ombrina boccadoro”, epíteto realmente elucidativo.
Distribuição: Senegal, até ao Canal da Mancha, passando pelo Mediterrâneo e Mar Negro.
É um peixe costeiro, mas pode ser encontrado a profundidades superiores a 100m.
Alimenta-se normalmente no fundo, fazendo parte da sua dieta lulas, chocos, crustáceos e outros peixes.
Uma outra característica é o som emitido, que se assemelha a um rosnar ou roncar. Estes sons são produzidos por músculos específicos localizados na região da barriga e elas utilizam-nos para comunicar entre si.
Na maior parte do ano, a diferenciação de sexos não é fácil. No entanto, na altura da reprodução, as fêmeas apresentam a barriga muito avermelhada e o ânus e a papila genital mais dilatados. Quanto aos machos, quando capturados, ao serem manipulados ou com uma ligeira pressão na zona da barriga, “ejaculam”.
Na nossa costa, a reprodução é feita nos estuários, mas para que tal aconteça tem que existir uma conjugação de vários factores ambientais. Se tal não suceder, pode não existir sobrevivência dos ovos e larvas, levando a que os juvenis, e depois os adultos, venham mais tarde a escassear nesses locais mas também noutros. O pico da reprodução ocorre nos meses de Maio e Junho, podendo prolongar-se pelo Verão. A seguir à desova, com a cavidade abdominal mais vazia e a necessitar de repor as suas energias, a sua voracidade aumenta exponencialmente, deslocando-se para águas mais costeiras. As pequenas, continuam a crescer no estuário durante o Verão, até aos primeiros frios e chuvas.
A medida mínima legal é 42cm. No entanto, estudos na costa portuguesa apontam para que a maioria dos indivíduos só se reproduzam a partir dos 70-80 cm.
Para que a partilha de conhecimentos de pesca tenha razão de existir, devemos defender determinadas posturas para que não corramos o risco de ficarmos só com os conhecimentos e não os conseguirmos praticar.
A redução de stocks de peixe é muito difícil ou impossível de imputar aos pescadores "lúdicos" ou desportivos, pois todos sabemos que as causas são outras, a poluição, a pesca profissional e a má gestão dos recursos. Contudo, não podemos apontar as baterias exclusivamente à poluição e aos profissionais, antes devemos ser críticos connosco próprios. De facto, ao apanharmos e retermos uma corvina adulta, são milhões de ovos que se perdem…e não apenas num ano, mas em todos os seguintes que ela poderia vir a viver e desovar.
Acredito que devemos respeitar os tamanhos mínimos e considero que algumas medidas deviam ser alteradas, para que as legais correspondessem efectivamente à idade reprodutora de cada espécie, aumentando as hipóteses de reprodução, e assegurando, assim, gerações futuras.
Neste momento, seria benéfico que cada um de nós, quando pescamos pequenos exemplares (tendo alguns o tamanho legal), pensássemos em libertá-los, ajudando a concretizar o sonho futuro de os podermos continuar a pescar e comer com moderação.
A corvina cresce rápido e isso explica o recente desenvolvimento da sua aquicultura. Um indivíduo com 42 cm (~700g) na Primavera pode ultrapassar os 60 cm no final do Outono (~2Kg). Compensa assim largamente deixar os mais pequenos escapar para os apanhar maiorzitos no final do ano.

Pescar, preservar e divulgar é o nosso lema, por isso acho que nada melhor do que repensar esta frase para terminar:

As corvinas já nos acompanham desde do Mesolítico, e você? Quantos mais anos as quer na nossa companhia?

2 comments:

Luís Marcelo disse...

Grande Alexandre...tenho as 2 revistas, onde estão publicados os dois artigos, que li com grande entusiásmo...parabens aos 2 autores, fico a aguardar mais do mesmo :)!

Abraço!

Luís Marcelo

Nuno disse...

Excelente texto, muito completo, parabéns. Acrescentaria apenas que a reprodução no sul do país começa um pouco mais cedo, mais perto ao início da Primavera. E uma referência a que a idade se vê através de cortes feitos nos otólitos (=juízos), aquelas pedras que elas têm na cabeça e que muitos usam em fios, brincos e aneis.
Ah...e se alguém me quiser arranjar um "juízo" de uma de > 50 kg (de preferência com comprimento e fotografia da ova/leituga acoplada) eu posso cortá-lo e dizer-lhe a idade. :)
Um abraço